Arquivo mensais:março 2011

Papagaios, o Universo e Tudo Mais

A genialidade de Douglas Adams me assombra. Considero ele um dos melhores satiristas de todos os tempos. Não que eu tenha qualquer autoridade para afirmar isso, mas a julgar pela sua “trilogia de quatro livros” (que na verdade são cinco) minha opinião se confirma. A propósito, vejo muita semelhança com o humor do também inglês Ricky Gervais, criador das brilhantes séries The Office.

Há algum tempo atrás assisti ao vídeo da palestra Parrots, the Universe and Everything de Adams, realizada em maio de 2001 na UCSA poucos dias antes de falecer. Nela, ele fala sobre seu livro preferido—que não é tão famoso assim—, Last Chance to See, escrito em conjunto com Mark Carwardine com base na série de rádio homônima produzida pela BBC. Nessa série, Adams e Carwardine visitam vários lugares do mundo para tentar conhecer alguns animais ameaçados de extinção. A maneira com que Adams relata suas experiências é absurdamente divertida por sua ironia, mesmo tratando de um assunto sério. Recomendo muito assistir! Infelizmente o vídeo não tem legendas, e o mais próximo disso é esta transcrição em inglês, mas que já deve ajudar um pouco. E recomendo que fique bem confortável, pois a palestra tem 1 hora e 27 minutos.

Ao final da palestra o microfone é aberto para perguntas da plateia. Claro que todas as perguntas que foram feitas dizem respeito aos seus livros da série O Guia do Mochileiro das Galáxias. Na última pergunta, a 1:23:20 do vídeo, uma moça pergunta a Douglas Adams o que ele tem contra relógios digitais, referindo-se à primeira frase do primeiro capítulo do primeiro livro da série. A resposta foi a seguinte, em uma tradução livre:

Bem, eu tenho que admitir que eles melhoraram muito desde que eu escrevi aquilo. Mas se você pensar sobre isso, os primeiros relógios digitais que eram… olhe um relógio normal com ponteiros e você verá um gráfico de pizza. Lembra daquele tempo quando costumávamos nos empolgar com os gráficos de pizza que o computador fazia para nós? Oh, gráficos de pizza! Mas ao mesmo tempo em que estávamos ficando incrivelmente empolgados com os gráficos de pizza e o que eles podiam fazer para o nosso entendimento do mundo, nós estávamos dizendo: “Nós não queremos gráficos de pizza em nossos pulsos. É uma tecnologia ultrapassada. Não, nós não queremos algo que basta dar uma olhada rápida para ver que horas são. Nós queremos uma coisa que faça você ir até um canto escuro, coloque sua maleta no chão e pressione um botão para ler: “Oh, são 11:43, agora o que é… Uhm… Quanto falta pras doze horas?”. E isso era progresso.

Mas veja bem, a melhor coisa do ser humano—aproveitando para fazer uma piada—é que nós não só inventamos coisas que são melhores e realizam suas funções melhor. Mas até as coisas que já funcionam perfeitamente nós não conseguimos deixar em paz! É um dos aspectos mais interessantes do ser humano: nós continuamos inventando aquilo que já acertamos uma vez. Por exemplo, as torneiras. É muito muito simples: você gira pra um lado e a água sai; você gira pro outro e a água para. Nós ficamos craques nisso. Isso funciona. Mas é incrível quando você está em um hotel, ou num aeroporto, e você se aproxima da pia com uma certa ansiedade, sabe. “Certo, o que eu faço? Eu giro alguma coisa? Eu aperto alguma coisa? Eu puxo alguma coisa? Eu dou uma joelhada? Eu só preciso ficar perto?” E depois que a água começa a sair, porque a torneira captou uma espécie de onda de energia cerebral de você ou sei lá, como que para? “É meu trabalho fazer a água parar? Ou vai parar sozinha?” Eu acho que nós já acertamos a torneira na primeira vez…

© Copyright 2001. Regents of the University of California. http://navarroj.com/parrots/

EDIT 29/03/2011: Por uma grande coincidência, comecei a ler essa semana o livro O Design do Dia-a-Dia, de Donald A. Norman, que fala justamente sobre relógios digitais e torneiras, além de portas, geladeiras e telefones. Este é o livro que afirma que, se você não consegue usar um produto, a culpa não é tua mas sim do designer. Coloque este livro na tua lista.

Coisa incrível essa tal de memória olfativa

Neste último sábado fui visitar novamente a Livraria Cultura, depois de um bom tempo. O saldo da brincadeira foram os livros O design brasileiro de tipos digitais, de Ricardo Esteves, 1984, de George Orwell, O professor e o louco, de Simon Winchester, e A linguagem das coisas, de Deyan Sudjic. E foi este último que me inspirou para escrever este post.

Este livro é impresso pela RR Donnelley sobre papel Couché Magno Satin 150g/m². Não sei se é por causa do papel, tinta ou cola, só sei que o cheiro dele é o mesmo dos livros da série New Interchange, com os quais comecei a aprender inglês quando eu tinha uns 12 anos (eu acho). Mas o mais interessante é que esse cheiro na verdade me lembra especificamente das ilustrações de Randy Jones (não confundir com Randy Jones, caubói do Village People). Engraçado pensar que até ilustração tem cheiro…

Exercício do livro Interchange ilustrador por Randy Jones

Ilustração de Randy Jones para livro da série New Interchange.

Ilustração de Randy Jones para livro da série New Interchange.

Créditos das ilustrações: (c) Randy Jones.
Exercício extraído do livro Interchange Third Edition, de Jack C. Richards com Jonathan Hull, Susan Proctor & Charles Shields. (c) Cambridge University Press 2008.

Justificando

Escrevo este rápido post apenas para justificar a minha ausência nas últimas semanas. Nesse tempo, estive trabalhando em vários projetos, sendo um deles o que eu já havia comentado a respeito aqui no blog.

Mas outro projeto também está me tomando bastante tempo, que é o redesenho deste blog/portfólio. Na verdade, não vejo problema algum com o leiaute atual do blog, mesmo sendo o padrão WordPress. O problema é que estou atualmente sem portfólio, e como eu preciso desenhar alguma coisa pra ele, optei por fazer um redesenho mais abrangente e usar o mesmo leiaute nos dois. Quero que o blog complemente o portfólio e vice-versa, mas sem misturá-los.

Não vou prometer prazos, já que é a primeira vez que desenho um template para WordPress, mas vou tentar não deixar o blog abandonado nesse meio tempo.

Até mais!