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Papagaios, o Universo e Tudo Mais

A genialidade de Douglas Adams me assombra. Considero ele um dos melhores satiristas de todos os tempos. Não que eu tenha qualquer autoridade para afirmar isso, mas a julgar pela sua “trilogia de quatro livros” (que na verdade são cinco) minha opinião se confirma. A propósito, vejo muita semelhança com o humor do também inglês Ricky Gervais, criador das brilhantes séries The Office.

Há algum tempo atrás assisti ao vídeo da palestra Parrots, the Universe and Everything de Adams, realizada em maio de 2001 na UCSA poucos dias antes de falecer. Nela, ele fala sobre seu livro preferido—que não é tão famoso assim—, Last Chance to See, escrito em conjunto com Mark Carwardine com base na série de rádio homônima produzida pela BBC. Nessa série, Adams e Carwardine visitam vários lugares do mundo para tentar conhecer alguns animais ameaçados de extinção. A maneira com que Adams relata suas experiências é absurdamente divertida por sua ironia, mesmo tratando de um assunto sério. Recomendo muito assistir! Infelizmente o vídeo não tem legendas, e o mais próximo disso é esta transcrição em inglês, mas que já deve ajudar um pouco. E recomendo que fique bem confortável, pois a palestra tem 1 hora e 27 minutos.

Ao final da palestra o microfone é aberto para perguntas da plateia. Claro que todas as perguntas que foram feitas dizem respeito aos seus livros da série O Guia do Mochileiro das Galáxias. Na última pergunta, a 1:23:20 do vídeo, uma moça pergunta a Douglas Adams o que ele tem contra relógios digitais, referindo-se à primeira frase do primeiro capítulo do primeiro livro da série. A resposta foi a seguinte, em uma tradução livre:

Bem, eu tenho que admitir que eles melhoraram muito desde que eu escrevi aquilo. Mas se você pensar sobre isso, os primeiros relógios digitais que eram… olhe um relógio normal com ponteiros e você verá um gráfico de pizza. Lembra daquele tempo quando costumávamos nos empolgar com os gráficos de pizza que o computador fazia para nós? Oh, gráficos de pizza! Mas ao mesmo tempo em que estávamos ficando incrivelmente empolgados com os gráficos de pizza e o que eles podiam fazer para o nosso entendimento do mundo, nós estávamos dizendo: “Nós não queremos gráficos de pizza em nossos pulsos. É uma tecnologia ultrapassada. Não, nós não queremos algo que basta dar uma olhada rápida para ver que horas são. Nós queremos uma coisa que faça você ir até um canto escuro, coloque sua maleta no chão e pressione um botão para ler: “Oh, são 11:43, agora o que é… Uhm… Quanto falta pras doze horas?”. E isso era progresso.

Mas veja bem, a melhor coisa do ser humano—aproveitando para fazer uma piada—é que nós não só inventamos coisas que são melhores e realizam suas funções melhor. Mas até as coisas que já funcionam perfeitamente nós não conseguimos deixar em paz! É um dos aspectos mais interessantes do ser humano: nós continuamos inventando aquilo que já acertamos uma vez. Por exemplo, as torneiras. É muito muito simples: você gira pra um lado e a água sai; você gira pro outro e a água para. Nós ficamos craques nisso. Isso funciona. Mas é incrível quando você está em um hotel, ou num aeroporto, e você se aproxima da pia com uma certa ansiedade, sabe. “Certo, o que eu faço? Eu giro alguma coisa? Eu aperto alguma coisa? Eu puxo alguma coisa? Eu dou uma joelhada? Eu só preciso ficar perto?” E depois que a água começa a sair, porque a torneira captou uma espécie de onda de energia cerebral de você ou sei lá, como que para? “É meu trabalho fazer a água parar? Ou vai parar sozinha?” Eu acho que nós já acertamos a torneira na primeira vez…

© Copyright 2001. Regents of the University of California. http://navarroj.com/parrots/

EDIT 29/03/2011: Por uma grande coincidência, comecei a ler essa semana o livro O Design do Dia-a-Dia, de Donald A. Norman, que fala justamente sobre relógios digitais e torneiras, além de portas, geladeiras e telefones. Este é o livro que afirma que, se você não consegue usar um produto, a culpa não é tua mas sim do designer. Coloque este livro na tua lista.

Conductor: www.mta.me

Volta e meia encontro coisas que eu gostaria de ter feito. Esta é uma delas.

Alexander Chen é o pai do projeto Conductor, uma representação gráfica animada das linhas de metrô de Nova York. Até aí tudo bem. Mas as linhas de metrô comportam-se como cordas de um instrumento musical e, cada vez que uma linha cruza outra, temos música (ou uma espécie de). As linhas são tocadas pelos trens ou você mesmo pode tocar cada uma delas.

Este projeto foi feito em HTML5 e JavaScript (com uma pitada de Flash para o áudio), e os horários de partidas e chegadas em cada estação são obtidos automaticamente através da API da Metropolitan Transportation Authority. Recomendo uma visita ao site, mas caso o seu navegador não suporte todos os recursos, assista ao vídeo abaixo (ou baixe o Opera).

via serrilha